Ask @mrgoto:

Quais são as evidências da teoria das 5 fases do luto proposta por Elisabeth Kubler-Ross? Algum estudo replicado aí?

A hipótese de que todas as pessoas passam por todas as cinco fases é completamente furada. Nem a própria Kübler-Ross sustentou isso por muito tempo, a versão final dela era de que as pessoas passam pelo menos por duas fases, sem uma ordem específica.
Não sei se essa formulação de duas fases já foi testada, mas mesmo ela, já bastante trivial, é problemática, porque essas fases são muito mal-definidas, a ponto de se confundirem. Não é claro o suficiente o que separa a negação da raiva, ou a depressão da aceitação, por exemplo.
Essa teoria tem os mesmos problemas fundamentais do MBTI: ambos surgiram dentro da cultura da psicanálise, em que teoria se sustenta em teoria, sem nenhuma preocupação com o rigor na definição dos termos e processos, a conexão com o conhecimento científico estabelecido, e com grande aversão, até hostilidade, à verificação empírica.
É a mesma cultura que, além dessas duas curiosidades, deu origem à ideia de que a proximidade excessiva da mãe é a causa da homossexualidade masculina, de que frieza excessiva da mãe é a causa do autismo, de que a síndrome de tourette é resultado da repressão da masturbação, de que a energia da libido pode ser usada para fazer chover... conforme cada uma dessas ideias é refutada e ridicularizada, os historiadores da psicanálise passam a borracha nela e fingem que nunca existiu.
Até isso acontecer, essas coisas continuam por aí, se passando por conhecimento.

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Esquisito; os países "mais felizes" do mundo são os que mais consomem antidepressivos. Essa felicidade toda parece ser doping... https://www.facebook.com/theOECD/photos/a.10150177273897461.304209.73290362460/10154295188367461/?type=3&theater

Eu sugiro uma outra possibilidade:
Os países "mais felizes" são também os mais desenvolvidos (o que certamente não é coincidência). Países desenvolvidos tendem a ter sistemas de saúde que funcionam bem. Portanto, neles as pessoas que têm depressão recebem os cuidados de que precisam, o que inclui a administração de antidepressivos.
Talvez os remédios sejam receitados em excesso, mas esse é um problema de paradigma, não de abrangência. E esse dado do consumo de antidepressivos é um sinal de que as pessoas pelo menos estão procurando e recebendo algum tipo de ajuda profissional. Acho que é mais provável que nos países "menos felizes" as pessoas com problemas emocionais, psicológicos, simplesmente não estejam recebendo atenção.

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A tipologia de Myers-Briggs é confiável? Tem base científica? Quais são as críticas contra ela?

Não é confiável.
Não tem base científica, o que inclusive pode ser visto claramente na própria história de origem do teste.
As principais críticas são:
- Os resultados variam muito no reteste, o que mostra que ou as questões são mal formuladas ou não dizem respeito a nenhum elemento estável da personalidade.
- A classificação que ele te dá (ESFP, INTJ, etc) não explica nem prevê particularmente bem nenhum aspecto da vida da pessoa, nem a distribuição ou o sucesso delas nas profissões, nos relacionamentos. O único eixo que tem algum valor preditivo é o de introversão-extroversão.
- Ele se baseia numa modelagem equivocada da distribuição populacional das características de personalidade. Elas tendem a ser uma distribuição unimodal, aproximadamente normal, muitas pessoas na média, poucas nos extremos. O teste supõe uma distribuição bimodal, com dois picos. Ou seja: na realidade, a maioria das pessoas não é extrovertida nem introvertida, mas está no meio do caminho. O teste sugere o contrário, que há poucas pessoas na média, e muitas nos extremos.
Dá uma lida aqui: http://www.indiana.edu/~jobtalk/Articles/develop/mbti.pdf

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Marcel, tenho resistência em fazer terapia porque sinto medo de expor meus demônios, como faço...

Uma experiência muito comum quando nós temos algum problema, principalmente dos tipos que nos levam pra terapia, é a sensação de isolamento, porque frequentemente achamos que ninguém vai nos entender, que ninguém passou por isso antes, ou que se trata de algo muito "estranho", ou que ninguém pode fazer nada pra ajudar.
Mas, veja, o psicólogo é treinado pra acolher, não pra julgar o paciente. Pra entender e lidar naturalmente com o fato de que pessoas têm todo tipo de problema. Nós sabemos como é difícil pra muitas delas procurarem ajuda.
E você não precisa chegar lá e expor tudo de uma vez. Já tive pacientes que preferiram contar a história deles por escrito. E não tem nada de errado nisso, o importante é avançar.
Eu lembro que uma das minhas primeiras pacientes, logo no começo da primeira sessão, quando eu perguntei o que podia fazer por ela, o que a tinha trazido ali, começou a chorar. Ela nunca tinha falado sobre os problemas dela pra ninguém, e não sabia como botar aquilo pra fora, foi tomada pela frustração, pela dor acumulada. E, bom, o meu papel ali era ajudar inclusive nisso, tornar mais confortável pra ela falar do que a afligia.
Eu entendo o seu temor. Mas, como disse, é uma parte fundamental do treinamento do psicólogo acolher a angústia do paciente, deixar ele confortável pra falar o que tiver que ser falado. O que recomendo é que procure indicações com seus conhecidos, um profissional que eles confirmem que seja ético, competente, dedicado, pra diminuir um pouco a ansiedade que mantém essa resistência.
Boa sorte.

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Estou pensando em fazer Psicologia e gostaria de saber sua opinião sobre as características q uma pessoa precisa ter/desenvolver pra ser um bom profissional. Além disso, vc teria algum conselho pra quem pensa em entrar nessa área (relacionado aos prós e contras do trabalho, talvez)? Obrigada! =)

A pergunta sobre características é muito abrangente. Saber pensar e aprender por conta própria. Não se permitir virar refém de práticas, ideias, técnicas, métodos, teorias, mas fazer uso delas, e estar preparado pra fazer ajustes, trocar, até jogar tudo no lixo e começar de novo se for necessário. Ter um interesse genuíno no bem-estar das outras pessoas.
Conselhos pra quem for estudar Psicologia:
- Os cursos no Brasil... não estão entre os melhores do mundo, pra usar um eufemismo. Não se iluda, você *VAI* sair da faculdade ignorante de conhecimentos que estão nos livros introdutórios de psicologia de outros países. Professores e colegas vão tentar te convencer de que o resto do mundo é que está errado em focar na psicologia enquanto ciência. Será?
- Escolha um tema ou área que te interesse e se aprofunde nele. Ignore a opinião dos seus colegas sobre seus interesses.
- Faça iniciação científica. Entenda os métodos de pesquisa. Seja capaz, ao final do curso, de produzir conhecimento.
- Aprenda Inglês e se mantenha atualizada com pesquisas feitas no resto do mundo.
- Aprenda a ler artigos em periódicos acadêmicos. Eles é que são a fonte primária de conhecimento, não jornais, o UOL, o Huffington Post, a Superinteressante ou a Galileu.
- Aprenda estatística. Aliás, entenda estatística, não no sentido de decorar fórmulas, mas de saber pra que elas servem, de saber pensar usando conceitos estatísticos. Você precisa se sentir confortável pensando em fenômenos e processos usando distribuição normal, desvio-padrão, significância, tamanho de efeito.
- Como disse o David Buss, no futuro toda psicologia será psicologia evolutiva. Estude muito bem biologia, genética, evolução. A mente humana é fruto da evolução em *TODOS* os seus aspectos. Tudo aquilo que reconhecemos como comportamento humano foi selecionado pela evolução.
- Mesmo que você não tenha nenhum interesse em behaviorismo, você precisa aprender a pensar como uma analista do comportamento, porque o rigor metodológico dessa área é único e imprescindível.
- Conheça a fundo as limitações e as críticas às teorias e técnicas e instrumentos que você adotar. Conheça a história da Psicologia. Se se decidir pelo behaviorismo, sabe responder às críticas que fizeram com que essa abordagem perdesse espaço a partir dos anos 50? Se decidir se tornar psicanalista, se sente confortável com todas as mentiras que Freud inventou pra erguer a psicanálise, muitas das quais são repetidas até hoje?
Sobre a atuação profissional... só posso sugerir que converse mais a fundo com gente que trabalhe em cada área, não é o tipo de coisa que cabe aqui.
Boa sorte!

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Depressão tem cura?

Nós tendemos a pensar doença e saúde em termos binários, a pessoa tem esta ou aquela doença, ou não tem. Está doente ou saudável. Se existe remédio ou tratamento, então 100% dos casos vão ser curados.
Mas não é bem assim que as coisas funcionam. As doenças se manifestam com intensidades e progressões diferentes, um mesmo tipo de infecção pode responder imediatamente aos remédios em um caso e, em outro levar a pessoa para a UTI. A maioria dos remédios, a maioria das formas de tratamento pra qualquer doença, tem uma taxa de sucesso, que raramente é 100%.
A mesma coisa acontece com doenças psicológicas.
Então, sim, a maioria dos casos de depressão tem ou cura através de psicoterapia e remédios, ou tratamento eficiente a ponto da pessoa lidar muito bem com seus sintomas e viver uma vida perfeitamente normal. Em alguns outros casos, o tratamento vai fazer diferença, mas a pessoa vai continuar tendo problemas enfrentando essa doença enquanto ela durar. E existem casos em que a pessoa não responde a nenhum tratamento. É necessário considerar também a interação dessa variabilidade de efeito com a variabilidade de gravidade dos sintomas. É uma coisa a pessoa não responder a terapia ou remédio mas ter um tipo de depressão que não a impede de estudar e trabalhar e se relacionar. É outra coisa ela não responder com o tipo de depressão que não a deixa sair da cama em certos dias.
No geral, vale essa regra: qualquer ajuda profissional em se tratando de doenças psicológicas é melhor do que nenhuma.

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Considerando a interação gene x ambiente, genética do comportamento e impacto de problemas neurológicos/psiquiátricos na tomada de decisão das pessoas, o quanto considera que temos livre arbítrio?

Depende do dia. Às vezes penso que temos zero, às vezes penso que temos um tanto.
Mas, como não sabemos, e provavelmente mesmo se soubéssemos, acho que o que vale é essa frase do Philip Pullman:
"We are all subject to the fates. But we must all act as if we are not, or die of despair".

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Na sua opinião, por que pessoas muito introspectivas, quietas e tímidas costumam ser tão hostilizadas e subestimadas no ambiente escolar?

Em nível macroscópico, abstraindo-se a intenção consciente por trás dos nossos atos, o comportamento social só faz sentido se pensado em termos de competição e cooperação, funcionando como uma economia em que o valor é o status no grupo.
Então, as pessoas tendem a fazer coisas que aumentem seu status, e tendem a evitar fazer coisas que o diminuam. Um exemplo é usar roupas que estejam na moda, e evitar usar roupas que estejam muito fora de moda. Outro exemplo é reproduzir o discurso político do grupo com o qual você se identifica e no qual está inserido, e evitar reproduzir o discurso político contrário. Simplificando grosseiramente, faz bem para o status de alguém dentro de um grupo de pessoas conservadoras argumentar a favor de ideias conservadoras. Faz mal para o status dela argumentar a favor de ideias progressistas.
Só que as pessoas também fazem coisas para *outras pessoas* que aumentam seu status.
É essa a função social do bullying, da hostilização, da subestimação. Estabelecer uma hierarquia, um ranking. Quem hostiliza ou subestima está tentando se mostrar para os outros como estando acima do seu alvo, estabelecer seu lugar na hierarquia social abrindo distância deste outro. Tanto é que a maioria dessas agressões verbais ou físicas são públicas, feitas com uma plateia por perto para assistir isso.
E as pessoas introspectivas, quietas e tímidas são o alvo preferencial desse tipo de comportamento por serem percebidas como alvos fáceis. Por não participarem tão ativamente desse jogo de busca por status social, tendem a estar em posições inferiores do "ranking".
Agora, claro, pessoas adotam essa estratégia agressiva de busca de status quando é o que enxergam (não conscientemente, mas funcionalmente) ao seu alcance. Outras, a maioria, vão tentar se destacar na escola sendo legal, popular, bom nos esportes, tendo notas boas, etc.

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Como você superou a depressão?

Não teve segredo nenhum, é o que qualquer pessoa informada vai te indicar: terapia e, porque também foi necessário, medicação.

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É certo abortar uma criança só por q a mulher foi estuprada q culpa essa criança tem?

Poucas coisas me tiram do sério. Perguntas como essa são uma delas.
Quando eu tive depressão, cuidei de uma cachorrinha por um tempo. Eu não pedi pra cuidar dela, não me ofereci, não aceitei formalmente. Eu simplesmente cuidei, porque não tinha mais ninguém pra fazer isso.
E ela era extremamente dependente. Eu já saía pouco de casa, por causa da depressão, mas nessa época cada vez que fazia isso era, ainda por cima, com um peso enorme na consciência, porque sabia que ela ficava terrivelmente ansiosa sozinha. Ela dormia dentro do meu quarto, porque não suportava nem ficar do outro lado da porta.
Eu comprava a ração mais cara, porque sentia que era minha obrigação. Mantinha a tigela de água limpa. Dava banho eu mesmo, e aprendi a secar do jeito certo pro pêlo ficar solto e macio. Levava no veterinário. Quando ela ficou debilitada, pegava no colo e levava pra fazer xixi.
Mas... como disse, eu nunca pedi pra cuidar dela. Nunca me ofereci. Nunca aceitei formalmente. Por causa disso e por causa da dependência extrema dela, preciso admitir que com o tempo meus sentimentos ficaram muito ambivalentes. Eu tinha um carinho enorme, e ao mesmo tempo me ressentia daquela dependência. Qualquer barulho, qualquer movimento que eu fizesse, já a sobressaltava. Sem perceber, passei a me policiar, andar na ponta dos pés quando ela estava dormindo, abrir embalagens devagar. Ela acordava de madrugada, e quando andava pelo quarto, até deitar e dormir de novo, me acordava também.
E o resultado dessa ambivalência, desse ressentimento, é que fui deixando de ser tão carinhoso e de dar tanta atenção além das responsabilidades rotineiras. Era incrivelmente desgastante ter que a assegurar o tempo todo, ou assistir ela se sobressaltar e ficar andando a esmo, assustada, até se acalmar de novo.
Então, mesmo tendo justificativas, depressão, cuidar sozinho, vou sempre carregar comigo um pouco de culpa, de peso na consciência: o que eu poderia ter feito de diferente? Será que ela sentiu falta de mais atenção e carinho nos últimos tempos?
Agora, veja... tudo isso por causa, bem, de um cachorro. Eu me sentia mal, mas podia deixar ela sozinha. Não tinha que me preocupar com o futuro dela, não corria o risco de causar tamanhos estragos, traumas, que afetassem sua vida, seus relacionamentos, suas escolhas, sua educação, sua carreira.
Mas só essa experiência já me deu uma noção, distante, desproporcional, mas uma noção... da enormidade da responsabilidade de uma mãe, talvez solteira, talvez sem família com quem possa contar, talvez sem recursos ou boa educação, talvez com a saúde mental prejudicada, que tenha que lidar com uma gravidez indesejada, e depois não só cuidar, mas *criar* UM FILHO.
Então, quando alguém fala sobre aborto nesses termos, ou em outros parecidos... eu preciso dizer, cara, você só consegue lidar com esse assunto assim, com essa leveza, esse distanciamento, porque você *não entende*.
Se *entendesse*... a conversa seria completamente diferente.

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Existe alguma método cientificamente comprovado de conseguir dormir menos sem sofrer com isso?(sem incluir o uso de drogas)

Adultos precisam de 7 a 9 horas diárias de sono, variando dentro dessa faixa de pessoa pra pessoa de acordo com sua constituição física, sua idade, saúde, estado emocional, seu ambiente (qualidade da cama, temperatura, nível de ruído).
Dormir menos do que seria ótimo para você tem consequências, não importando o truque que se tente, com ou sem drogas. Esse lance de dormir, sei lá, durante exatamente sete minutos e trinta e seis segundos quinze vezes ao dia está no mesmo nível daqueles "truques estranhos que os médicos detestam para curar a feiúra" dos banners do UOL.
Dormindo menos que o necessário sua concentração e sua quantidade de energia diminuem, seu humor e sua saúde podem piorar. O lance é que algumas pessoas conseguem lidar razoavelmente bem com o custo de dormir algumas horas a menos todos os dias. Mas, até aí, existem pessoas que moram em bairros pobres expostos a níveis tóxicos de chumbo, crômio, mercúrio, pesticidas sem desenvolver grandes sintomas, e nem por isso esse tipo de poluição deixa de ser um problema sério. Porque, assim como existem muitas outras pessoas que morrem por contaminação, dormir menos de seis horas por muito tempo aumenta consideravelmente o risco estatístico de morte, mexendo com a pressão arterial, nível de açúcar no sangue, nível de gordura visceral e outras variáveis metabólicas.
Agora, saudável, saudável mesmo... é descobrir a sua quantidade ótima de sono diário. Pode ser menos ou mais do que você dorme atualmente. E, pra isso, você precisa se alimentar direito, se exercitar, controlar o peso, dormir todos os dias no mesmo horário, confortavelmente, cuidar da saúde psicológica, tendo relações significativas com as pessoas ao seu redor e um trabalho, uma atividade, que te dê satisfação.
Com isso tudo, a tendência é que você encontre sua rotina ideal de sono, e nem precise de despertador pra acordar no horário certo de manhã, recomposto e feliz como personagem de comercial de margarina.
Só que... dado o nosso estilo de vida coletivo moderno, controlar todas essas variáveis não é exatamente fácil.

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Existe alguma justificativa psicológica para a proibição de propaganda em boca de urna?

Sim, o efeito de um estímulo, a capacidade dele de afetar uma decisão sua, é mais forte imediatamente após você ser exposto a ele, e diminui com o tempo.
Então, se você encontra um cabo eleitoral na rua dois dias antes da eleição, ainda vai pra casa, vai comer, dormir, trabalhar, sair com os amigos antes de ficar de frente para a urna. Nesse meio-tempo, o impacto e a influência principalmente emocional desse encontro diminuem bastante, você pode pensar a respeito do que viu e ouviu.
Na boca de urna, o risco é muitas pessoas votarem de impulso só por terem ouvido uma defesa vigorosa, apaixonada, talvez bastante mentirosa, de um cabo eleitoral para o seu candidato. E ataques aos adversários. A distância entre esse encontro e a urna é de poucos minutos. E aí a eleição deixa de ser (teoricamente) sobre propostas de governo, sobre uma visão ponderada de sociedade, de futuro, e passa a ser também sobre quem consegue fazer a campanha mais intensa, mais barulhenta na frente das zonas eleitorais.
Vamos supor que uma eleição tenha 20% de votos brancos e nulos, mais 20% de pessoas que decidem seu voto na última hora ou que votem sem muita convicção. Seriam 40% dos eletores teoricamente suscetíveis a influências de última hora. Se a campanha de boca de urna conseguir mudar o voto de apenas uma fração dessas pessoas, digamos, 1/4 delas, dando votos para o seu candidato ou tirando do seu adversário, já seriam 10% de votos decidos ali, na hora, por quem tiver a melhor organização, conseguir causar o maior impacto imediato nos eleitores. O suficiente pra mudar o resultado de muitas eleições. A vantagem da Dilma pro Aécio em 2014 foi só de 3%.
Além disso, a presença de cabos eleitorais dentro ou ao redor dos locais de votação pode constranger e intimidar os eleitores, também afetando a decisão deles, até a decisão de votar ou não em países com voto facultativo.
Isso não seria uma democracia madura, seria um circo. Então, a maioria dos países proíbe.

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Sou primeiro-anista de psicologia na unesp de bauru, e depois de analisar a grade da usp notei que não temos anatomia e nossa carga horária é 60h enquanto a da usp 90. Sinceramente, estamos em desvantagem ou essas horas a mais e a biologia não são tão relevantes assim?

Cara, a formação em Psicologia é muito ruim em qualquer lugar do Brasil. Dê uma olhada na grade das melhores universidades dos países desenvolvidos e chore.
Stanford, por exemplo: http://stanford.io/2cMtETM
Não sei se ainda é assim, mas até alguns anos atrás você podia se formar na USP sem ter lido um único artigo científico, de pesquisa quantitativa. Sem ter tido uma única aula de terapia cognitivo-comportamental. Uma única aula de psicologia social científica. Sem realmente entender a diferença entre as abordagens, com grande chance de falar bobagem sobre aquelas que você não adotou (coisa que até os professores faziam). Sem ter que fazer monografia ou TCC!!!
O que realmente diferencia as melhores universidades, as públicas, a PUC, das demais é o fato dos professores serem também pesquisadores e portanto poderem oferecer mais nas aulas do que o conteúdo quadradinho, canônico, dos livros; a existência de programas robustos de pós-graduação; a possibilidade de se envolver logo de cara com o trabalho de laboratório, de campo, talvez até ajudar no mestrado ou doutorado de alguém, se você tiver a iniciativa de bater na porta dos departamentos pra fazer estágio ou iniciação científica; e a concorrência no vestibular, que seleciona os alunos mais ambiciosos, que vão investir mais na formação por conta própria e, com isso, influenciar seus colegas a fazerem o mesmo, pela inspiração ou pela competição.
Então, uma aula a mais ou a menos, particularmente em anatomia, não vai fazer grande diferença. É uma perda, mas é coisa pequena perto de todo o resto. Já as horas de aula, sim, acho que fazem mais falta. Mas até aí, se o conteúdo for fraco ou tiver muita enrolação, fica difícil lamentar passar menos tempo exposto a isso.
Se você não for por conta própria muito além do que o curso de psicologia oferece, em qualquer universidade do país, vai ser um psicólogo medíocre.

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vestibular mede inteligência?

Muito provavelmente sim. Mas não da maneira que você espera.
Os americanos têm um tipo de vestibular chamado SAT, e pesquisas mostram que ele tem uma correlação de mais ou menos 0.8 com a inteligência, medida por testes de QI. Ou seja, estatisticamente, a inteligência prevê com razoável precisão o desempenho de uma população na prova, e vice-versa.
Agora a parte do "não da maneira que você espera": Isso *não significa* que *necessariamente* um indivíduo específico vá ter um certo desempenho no vestibular porque tem um certo QI, ou que tenha um certo QI porque teve um certo desempenho no vestibular.
Significa que, dentro da população de estudantes em que foi realizada a pesquisa, *na média*, existe uma alta correlação entre as duas variáveis.
Ok, isso nos EUA. No Brasil, que eu saiba, nunca foi feita uma pesquisa do tipo.
Mesmo assim, é perfeitamente razoável supor que, também nos vestibulares daqui (e pra cada um deles seria necessário um estudo próprio, porque são elaborados por pessoas diferentes seguindo critérios diferentes, e prestados por populações de alunos diferentes), haja uma correlação positiva entre QI e desempenho na prova: quanto mais alto o QI, melhor tende a ser o desempenho. Só não sabemos qual a força dessa correlação.
Eu chuto que seria mais baixa que a do SAT. Nos EUA, por exemplo, a correlação do nível sócioeconômico com a nota no SAT é cerca de 0.2, muito baixa, mas não inexistente. Só que eles são um país muito mais rico e muito menos desigual do que nós, com um sistema educacional muito melhor e mais homogêneo, então acho que aqui esse tipo de fator externo conte mais, enfraquecendo um tanto a correlação com a inteligência.
* * * * * * * * * *
Fontes:
"Scholastic Assessment or g?
The Relationship Between the Scholastic Assessment Test and General Cognitive Ability" - https://www.psychologicalscience.org/pdf/ps/Frey.pdf?origin=publication_detail
"The Role of Socioeconomic Status in SAT-Grade Relationships and in College Admissions Decisions" - http://pss.sagepub.com/content/23/9/1000.abstract

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http://ask.fm/mrgoto/answers/138350976858 e essas habilidades são desenvolvidas só na infância?

Não, ao longo da vida toda. Tanto que tem pesquisas com cirurgiões mostrando que o desempenho deles melhora quando jogam videogames.

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Você recebeu uma mensagem para ficar longe do celular essa noite entre as 00:30 as 3:30 pq o planeta estaria com uma radiação altíssima? É boato?

Não, é verdade, mas a coisa é muito mais séria do que você imagina. Não foi só naquela noite, existe radiação por todo lugar, o tempo todo.
Ela está atrás de você neste exato momento. E na sua frente. E dentro do seu nariz.
O medidor de radiação da Apple que eu tenho sempre comigo está marcando três barrinhas agora, e olha que eu estou dentro de casa. Na rua, costuma marcar cinco.
E você não imagina a quantidade de radiação que tem por aí durante o dia. É tanta radição que consegue até esquentar vidro e metal, e se você concentrá-la com uma lupa dá pra botar fogo em papel.

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É possível um especialista conseguir acessar tudo que uma pessoa pesquisou em um computador, mesmo tendo excluído o histórico e formatado o pc?

Sim. Lamento.
Não há outra alternativa, você precisa fugir pra Sibéria.

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Dizem que video game desenvolve a coordenação motora, mas se for assim pq os nerds são em geral tão ruins em esportes, artes marciais, etc?

Ah, boa pergunta.
Os videogames desenvolvem o que chamamos de coordenação motora fina, que são movimentos altamente precisos e delicados. É o tipo de coordenação envolvida no uso de talheres, para escrever com caneta, digitar no teclado, tocar um instrumento musical, manipular o bisturi pra praticar cirurgia exploratória intracraniana nos seus amigos nos fins de semana, e usar os controles de videogame.
E o treino nesse tipo de coordenação motora não generaliza para a coordenação envolvida em chutar ou arremessar uma bola, dar um drible, usar uma raquete, porque são movimentos e grupos musculares diferentes. E além disso, os esportes exigem outras características físicas, como fôlego, resistência e força, além de características psicológicas como a resiliência, a disposição de seguir treinando mesmo cansado e com dores, ou frustrado com erros. Coisas em que os videogames não ajudam muito.
Mas tem um esporte que serve muito bem aos nerds e que é ajudado pela coordenação motora desenvolvida pelos games: o tiro ao alvo com pistora e rifle.

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você acha que as virtudes podem ser ensinadas?

Boa pergunta. A virtude existe e pode ser observada como uma coisa em si mesma, ou ela é inferida a partir do comportamento das pessoas?
Nós definimos uma pessoa como sendo caridosa porque vemos ou ficamos sabendo de alguma maneira que ela pratica atos de caridade, e não porque observamos "a virtude da caridade" propriamente dita em algum lugar nela, como uma medalha ou uma verruga.
Bem, comportamentos são ensinados o tempo todo, por instruções, por recompensas, por punição de comportamentos contrários... Sendo assim, podemos "ensinar as virtudes" incentivando os comportamentos virtuosos, ou punindo os comportamentos reprováveis.
E nós de fato fazemos isso: a nossa apreciação pelas virtudes platônicas, temperança, prudência, justiça, coragem, incentiva as pessoas a se comportarem de acordo com elas. Pessoas que praticam grandes atos de caridade são homenageadas. A covardia, o destempero, etc, são socialmente condenados.
Claro, existem complicações. Há instituições cujos organizadores recebem as doações e as homenagens sem realmente fazer muita caridade. Mas esse é outro assunto.

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O inconsciente é uma teoria metafísica?

Processos cognitivos, emocionais, até comportamentais acontecerem fora da nossa atenção e vontade, ou "consciência", é um fato, não uma teoria.
E não é metafísico, é... físico, material. É o funcionamento do cérebro.
Por exemplo, quando você vê a foto de uma pessoa, forma uma impressão sobre ela, se é simpática, agressiva, confiável, em *menos de meio segundo* ( http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/16866745 ). Isso acontece sem você perceber, de maneira inconsciente, automática.
Digamos que seja uma forma de reflexo cognitivo. Assim como aquela batidinha de martelo que o médico dá no seu joelho elicita imediatamente um reflexo muscular, a exposição à foto de uma pessoa desconhecida elicita imediatamente um julgamento sobre ela.
Agora, o que as pessoas geralmente pensam quando se fala sobre "o inconsciente" é o inconsciente psicanalítico. A ideia de que nossa vida consciente seria só uma fachada, incompleta ou mesmo mentirosa, e que existiria uma outra "mente", escondida e reprimida pelo "superego", composta por desejos e medos inconfessos, uma "verdade interior" que se manifestaria nos sonhos, na livre associação, nos lapsos, nos sintomas psicopatológicos, e que seria acessível pela interpretação desses sinais indiretos da sua existência.
E isso tudo é........ hmm.
Digamos, é "uma hipótese que não foi confirmada por pesquisa séria e metodologicamente rigorosa".

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Já tinha visto este estudo? O que acha dele? https://www.gottman.com/blog/the-12-year-study/

Vinicius Barcellos
Não tinha visto antes.
Acho interessante, mas a amostra é pequena e selecionada demais pra se tirar grandes conclusões. 21 casais que procuraram os serviços do instituto pra aconselhamento, ou que, se foram procurados, aceitaram ser sujeitos de uma pesquisa longitudinal. Ou seja, casais que têm problemas sérios e dificuldades em tomar iniciativa pra resolvê-los ficaram de fora, assim como casais que preferem não participar de uma pesquisa dessa, talvez justamente por não quererem expor seus problemas aos outros. A tendência, acredito eu, é que, não sendo uma amostra aleatória, o resultado seja mais positivo do que a realidade.
Mas, feita essa ressalva, é muito bom saber disso aqui, por exemplo: "Overall, relationship satisfaction and quality are about the same across all couple types (straight, gay, lesbian)".
E isso aqui: "Compared to straight couples, gay and lesbian couples use more affection and humor when they bring up a disagreement, and partners are more positive in how they receive it. Gay and lesbian couples are also more likely to remain positive after a disagreement." ...faz sentido se você pensar que, num casal homossexual, você entende certas coisas sobre o parceiro, que é do mesmo sexo que o seu, com mais facilidade do que muitos casais hétero. Isso talvez facilite a espontaneidade até na hora de resolver os conflitos, uma variável a menos pra complicar a relação.
Agora, isso aqui me parece suspeito: "Gottman and Levenson also discovered that gay and lesbian partners display less belligerence, domineering and fear with each other than straight couples do."
Estatísticas dos próprios EUA mostram que mulheres lésbicas sofrem consideravelmente mais violência doméstica do que mulheres hétero.
Link sobre isso: http://www.advocate.com/crime/2014/09/04/2-studies-prove-domestic-violence-lgbt-issue

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Já que respondeste sobre psicologia, tens algum conselho para quem quer se tornar psiquiatra e deseja começar o aprendizado desde cedo?

Eu sei muito pouco sobre a especialização em psiquiatria.
Na verdade, gostaria é de fazer várias perguntas pra alguém, pra saber como é a formação.

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Marcel, vou começar o curso de psicologia na ufrj nesse semestre, que conselhos você daria para quem está começando a estudar a área?

A formação do psicólogo no Brasil é ruim. O mercado editorial de psicologia no Brasil é ruim.
Aprenda muito bem Inglês e/ou Espanhol e vá desesperadamente atrás de material nesses idiomas. Material fundamental, comece do zero. Inclusive porque, em várias áreas, como psicologia social, cognitiva, experimental, isso é praticamente o que você vai estar fazendo, mesmo.
Aprenda bem estatística, genética, psicometria, o básico de neurociência, entenda a fundo a teoria da evolução e as suas implicações, até cair a ficha de por que no resto do mundo (ou seja, qualquer país que valorize mais a ciência do que nós) essas coisas são tão importantes pra gerar conhecimento e embasar prática. Estou dizendo isso não só porque é imprescindível, mas porque talvez ninguém mais vá dizer. Freud, Lacan, Guattari, Foucault, te vão ser enfiados goela abaixo de qualquer maneira.
Aprenda muito bem pelo menos o básico do behaviorismo, a disciplina intelectual que ele oferece é única na psicologia. Se você não entende o princípio da seleção por consequências, de contingência, independente da sua abordagem teórica, a sua compreensão do ser humano e a sua atuação profissional vão ser...... incompletas.
Descubra o que te interessa e se envolva com isso, fazendo iniciação científica, ajudando nos trabalhos de mestrandos, doutorandos. Uma grande vantagem das universidades públicas é a ênfase na pesquisa. Sem botar a mão na massa, sem os rigores da pesquisa científica, de preferência quantitativa, você se mantém refém dessa ilusão de tantos psicólogos de que sabe muita coisa. Essa ilusão se desfaz se envolvendo com áreas em que não basta só afirmar algo, em que o conhecimento é estabelecido o suficiente pra haver certo e errado, em que é necessário provar, de preferência com números. Aí, você descobre: é um ignorante. Ótimo. Hora de começar a estudar coisas além do seu autor de estimação. A melhor coisa que pode acontecer pra um psicólogo é ele ter esfregado na cara ainda na faculdade o fato de que é um ignorante. :P
Na maior parte do curso, você estuda autores. Pergunte a si mesmo, aos seus colegas, professores: onde está a prova de que o que esses autores dizem é verdadeiro, ou válido, ou útil? Por que você deveria aceitar o que eles dizem?
Em algumas áreas, a resposta vai ser: "Está aqui a prova". Em outras... bom, você vai ver. Esse tipo de questionamento não é bem-recebido em certos cantos da Psicologia. :P

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"Agir, eis a inteligência verdadeira. Serei o que quiser. Mas tenho que querer o que for. O êxito está em ter êxito, e não em ter condições de êxito. Condições de palácio tem qualquer terra larga, mas onde estará o palácio se não o fizerem ali?" - Fernando Pessoa. Isso procede, Arnaldo?

Sim, muito bom.

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Na maioria das vezes que eu recebo pergunta com link do Facebook, clico e não consigo acessar. Tipo este.
Imagino que ou seja algo que rendeu polêmica e a pessoa apagou, ou a página é fechada pra amigos e tal.

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About Marcel R Goto:

Advogado do Diabo, Pro Bono.